Portugal & Sousa

O meu segundo trabalho

Rui M. dos Santos

Rui M. dos Santos

· Atualizado 13/05/2026

As letras, o conhecimento das facturas e demais papelada

Como no emprego anterior, e aqui creio que foi o meu pai que arranjou o emprego tipo "estágio" ... Tinha acabado o curso Geral do Comércio. Tinha pela frente as chamadas "Secções Preparatórias" para poder depois entrar no Curso de Perito Contabilista.

As secções preparatórias eram apenas 3 ou 4 disciplinas ( não me lembro bem ) ... Então ficava com muito tempo livre.

Começei a trabalhar na empresa Portugal & Sousa, Lda .. Inicialmente o meu trabalho era apenas fazer notas de remessa e atender clientes.

Depois juntar as notas de remessa e no fim de cada mês fazer as facturas. Também tinha parte do trabalho da GWB (ground way bill) da EVA - Empresa de transportes de carga e passageiros que o meu patrão era agente para a cidade da GAbela.

Nest processo aprendi muita coisa... Aprendi a trabalhar com todos os papeis que eram usados nas empresas .. Notas de remessa, facturas, notas de débtio, notas de crédito, avisos de lançamento, borderaux bancários etc.

Aprendi a "preparar os papeis para o contabilista no fim de cada mês"

Como o meu patrão se financiava por um sistema de LETRAS DE FAVOR ( vim a saber mais tarde que, na prática, Angola se construiu entre 1961 e 1974 com base neste sistema de letras ). O meu patrão tinha um ciclo de amigos que "aceitavam letras uns aos outros para pagar investimentos novos ou pagar letras vencidas" ... Umas vezes "sacava" ou vezes "aceitava" ... Ainda havia outra opção que um terceiro aceitava ou sacava. Na prática era um sistema de "confiança total entre os empresários" que iam aos bancos com as letras, descontavam-nos, pagavam os juros e ficavam com o valor "net" ...

O valor era investido numa economia crescente e pujante e por isso rápidamente os lucros conseguiam compensar os investimentos.

Creio que uma loja (inicio da vida do meu patrão que veio para a Gabela como empregado e virou patrão) e depois a construção do predio ( então chamada de Casa MAndarin ) foi tudo pago por este sistema.

Tanto o Sr Rui Portugal como os sócios como a esposa trabalhavam dia e noite. Mereciam o sucesso que tinham.

Este processo de letras foi algo que APRENDI de A a Z ... Como lançar na contabilidade. Como colocar os controlos.

Foi uma experiência muito grande para mim.

Foi também a primeira vez que usei uma "prancheta Ruf" ...

Nota final ...

1-O Sr Rui Portugal detestava agrafes no papel porque "enferrujavam ao fim de algum tempo". Então todos os processos e papeis eram "colados" depois de devidamente ajustados em termos de esquadria, em vez de agrafados.; Ainda hoje quando organizo PAPEIS me lembro disto !!!

2- Também não me tinha apercebido do grau de importância que o Sr Rui Portugal dava ao meu trabalho ( que era suposto ser apenas para ocupar o meu tempo e para ser prestado gratuitamente ) até ao momento em que me fui despedir. Ele desejou-me muitos sucessos e deu-me um envelope com 4mil Escudos ... 4 mil escudos !! O meu pai ganhava por mês cerca de 1800 ... Nunca pensei. Desse dinheiro levei para Luanda 2mil ( que depois serviram para o pagamento da renda do mês pendente do apto onde ia morar ) e o meu pai ficou com 2 mil.

3- Sendo o Sr Rui Portugal tão importante na minha vida profissional, quando, em 2011, lançei o meu livro "do Tsunami económico à solução utópica" consegui descobrir onde ele morada em Coimbra onde o encontrei já velhinho assim como à esposa e a quem ofereci uma cópia do livro autografada !!