Foto Branco

O meu primeiro trabalho

Rui M. dos Santos

Rui M. dos Santos

· Atualizado 13/05/2026

aliás, o segundo !! O primeiro foi em casa a ajudar a familia no Arimbo.

Estava de férias e não me lembro se fui eu que pedi ou se foi o meu pai que arranjou, certo é que fui trabalhar para a FOTO BRANCO.

Havia na Gabela duas empresas de fotografia ... A Foto Rato e a Foto Branco.

Não me lembro com precisão quanto tempo trabalhei mas terá sido de 3 a 6 meses. Teria, creio, 14 anos de idade.

O meu trabalho foi genérico fazendo um pouco de tudo mas a maior parte foi na Camara Escura onde eu terei feito algo como 25mil fotos de 4 passes.

O Governo Português na altura criou uma lei onde TODOS os cidadãos deveriam ter um documento de identidade com foto. Acontece que na altura, menos de 10% das pessoas de Angola tinham BI. A partir de 1964 com a chamada "psico" todos os cidadãos do "império português" teriam que ter o tal de BI com foto e passaram a ser iguais a todos os outros independentemente de serem das colónias/provincias ou da chamada metropole. Até 1964, todos passaram a ser iguais independentemente do local de nascimento, raça ou religião.

O meu patrão identificou aqui uma oportunidade de negócio. Meteu-se num carro e começou a andar pelas "libatas todas do então kwanza sul" a fazer fotos de todos os cidadãos que não tivessem foto.

Colocava um numero no peito, tirava a foto de 4 passes, dava o recibo do deposito inicial com esse numero e trazia os rolos de fotos para a Gabela. Ele processava os rolos e depois dava-me os rolos para em fazer as FOTOS.

Eu colocava as fotos no Ampliador, via a imagem, escolhia o tipo de papel a imprimir aquela foto, primia o botão e fazia os 4 passes e depois passava para os quimicos que faziam o resto do trabalho, 1- revelação, 2- fixação, 3- ácido acético para limpar e depois ia para o secador.

Com a todo seca colocava a foto com os 4 passes dentro de um envelope com o nº que estava no peito do cidadão.

Fiz outros trabalhos... Aprendi fazer as misturas quimicas do revelador e fixador ... Aprendi bastante.

Como não tinha definido salário quando começei, lembro-me que quando recomeçou a escola o Sr Branco me ofereceu um "microscópia que tinha na montra e que não conseguia vender de marca TASCO" ... Foi o meu pagamento por aqueles meses de trabalho.

Serviu de experiência ... Hoje sei que fiz parte de um processo histórico de Angola ligado à tal PSICO.