Abbott Laboratories

Nova empresa, novo know how

Rui M. dos Santos

Rui M. dos Santos

· Atualizado 13/05/2026

E muito mais... Medicamentos, alfandega, propaganda médica

Ainda na PWC o mercado começou a ABRIR e, devido à fuga dos técnicos que começou a ocorrer, desenhava-se uma oportunidade SUPER para todos os "ficantes" ...

NA época a VHS VAn Omeran tinha decidido fechar as portas e estava a "saldar" o que tinha e entre as coisas uma NCR400.

Fui ter com o meu chefe, Sr Manning dizendo... O mercado vai explodir. Eu e o Rodrigues na prancheta RUF conseguimos fazer x clientes (não me lembro quantos na altura)... PODEMOS QUADRUPLICAR os clientes de a PWC comprar a NCR400 da VHS. Passavamos a ter um sistema que nos permitia fazer contabilidade a uma velocidade muito superior.

Ele não aceitou e na altura entendi porquê ... Afinal a PWC é mais uma empresa de auditoria e não de book keeping e por outra lado já deveria saber que a PWC internacional iria fechar o escritório de Luanda.

Nesse espaço de tempo e não me posso exactamente lembrar em que momento, o Sr Pessoa, Director da empresa Abbott - Angola , convidou-me para ser "controller da filial de Angola do Abbott".

Acabei por aceitar. As condições eram bem melhores que na PWC e incluiam a atribuição de uma viatura.

O Abbott tinha 11 pessoas e após a independência ficamos 5. Eu, o Gilberto ( Delegado de propaganda médica ), uma secretária e dois empregados indiferenciados. Conclusão ?? TODOS PASSAMOS A FAZER TUDO ...

Entrega de medicamentos, controlo de stocks, facturação, cobranças, questões ligadas à propaganda, alfandega, selagem de medicamentos, controlo nas farmácias das fichas dos produtos relacionados com o sistema neuro-vegetativo.

Louvo aqui o Gilberto ... ALMA da filial ... O conhecimento dele do mercado médico e o sentido prático que ele tinha e a capacidade de "ensinar" foi algo GRANDE num momento em que Angola vivia problemas sérios relativos ao inicio da guerra entre os movimentos de libertação.

Eu morava, na época, na Rua Paiva Couceiro / Hoje conego Manuel das Neves e o Abbott era na Vila Alice. Eu todos os dias saia da Paiva Couceiro (Mpla), passava pelos Combatentes (Unita), Av Brasil (FNLA) e entrava na Vila Alice (MPLA de novo) ... Todos os dias com ou sem confrontos que eram mais ou menos visiveis.

Estive várias vezes perto de zonas de confrontos mas esses confrontos não eram comigo ... Eram entre "eles" ... Entregava medicamentos em farmácias, onde, quando se entrava na area aquilo parecia os filmes do Faroeste.

Esta nossa politica de ENTREGAR o medicamentos nas farmácias colocou o Abbott em terceiro ou quarto lugar no ranking das empresas. Antes estavamos no fim da lista. Ninguém conhecia o Abbott ...

Neste período:

  • Pagamos o overdraft

  • vendemos práticamente todo o stock de tudo o que tinhamos

  • o Similac substituiu o NAN da Nestlé

  • quando acabou o Similac, por ideia genial do Gilberto, passamos a entregar Isomil ( um leite à base de soja que até aí só vendia meia duzia de unidades por mês apenas para o alérgicos ao leite de origem animal ). O Gilberto explicou isto nas farmácias e estas aderiram. Em momento de guerra, sem opção de leite animal, muitos BEBES angolanos nascidos nesse período "Isomilaram" :-)

Aprendi muito com o Gilberto sobre medicamentos .. Cheguei a inicar um curso de delegado de propaganda médica onde não me posso esquecer da frase que vem no manual "... você DPM terá uma profissão sui generis ... Porquê ? Porque você vai ter que convencer pessoas que sabem mais sobre medicamentos a dormir que você acordado, que o seu produto é que é o recomendado para determinadas doenças" .. Nunca me esqueci da frase.

Aprendi sobre a forma como os medicamentos são parameterizados num livro que se chamava de INDEX e que era, na prática, um "dicionário de doenças com indicação dos medicamentos para cada uma à frente com os nomes de todos os laboratórios existentes até 1974 em Angola"

Particular realce para um produto que, o ABBOTT nunca vendeu em Angola mas que existiam umas amostras no armazém que era uma "bomba para a asma" que eu passei a sofrer horrores a partir de determinado momento e que hoje penso ser de origem alergica de uns pós que havia no apartamento onde vivia. Duas bombadas e problema resolvido. Guardei logo as 3 amostras que existiam para meu uso. Antes tive que ir pelo menos duas vezes tomar injecções de aminofilina no hospital. É muito chato agora não me conseguir lembra do nome deste medicamento.

O Abbott tinha práticamente tudo... Antibióticos (Eritromicina), polivitaminicos de varios tipos incluindo o infantil Vidaylin, anti histaminicos, o famoso Nembutal ( para o tal sistema neuro vegetativo e que era rigorosamente controlado), Selsun para o cabelo, o leite similac e isomil. .. Aprendi tudo sobre todos os produtos.

Nos momentos da guerra mais criticos em que falharam os stocks completamente chegamos a usar "produtos fora de prazo mas com um prazo de validade ainda recentemente caducado" para fornecer as farmácias a quem explicavamos a situação de falta de stocks. Mais uma ideia do Gilberto que acredito que tenha ajudado muita gente. O Gilberto sabia que o que chamava de "Coeficiente de cagaço nas validades" era muito grande e, desde que o produto correctamente acondicionado ( que estavam todos) e visivelmente em bom estado, a probabilidade de estarem estragados era muito baixa. Não sei se devo escrever isto mas estamos a falar em soluções tomadas em tempo de guerra onde NÃO HAVIAM OPÇÕES !!

Absurdamente, quando Angola já estava com a situação estável, o Abbott internacional DECIDIU FECHAR A DELEGAÇÃO DE ANGOLA ....

Veio um auditor de Paris, Sr Omar Catalagloo para fechar a empresa. Ele próprio surpreso...

Viu o empenho dos 5 membros da equipa

Viu o evoluir da empresa

Viu o ranking da empresa no top da tabela dos 4 maiores do País.

E chegou a afirmar... Não entendo os meus chefes. Esta delegação NUNCA DEU LUCRO e agora que está a dar lucro e que pagou tudo o que deve VÃO FECHAR ...

Bom ... Conclusão fechou-se, venderam-se os activos (eu acabeir por comprar um carro Mazdas 616 de matricula AAG-O2-02 que passou a ser o meu carro por anos) e eu acabei por ser convidado pela Plessey para ser o controller da Plessey Angola.

Sobre a minha profissão em si ...

Eu, fruto dos ensinamentos do meu colega Rodrigues da PWC e com base no livro de um colega contabilista, Gil Fernandes, chamado "Tecnicas Contabilisticas" criei um sistema de contabilidade onde eu conseguia fazer toda a contabilidade de um mês num dia ( no caso do Abbott dois dias porque usavam um sistema sul africana chamado Kalamazoo que era mais chato que usar o RUF ) ... Mas OK .. Fazia em dois dias ... O resto do tempo era para tudo o resto .. Entregas, controlos, aprender etc

Sobre a parte de contabilidade no Abbott .. O grande trabalho era ter que:

  • Fazer o balancete no POC angolano em moeda Nacional

  • Converter o Balancete para dois planos, um de Paris ( idêntico ao POC ) e outro de New Iorque

  • Converter para USD e Francos Franceses

  • Fazer dois telexs para enviar para PAris e Nova Iorque todos os meses

    • Como não tinhamos telex tinha que ir ao aeroporto de Luanda usar o posto internacional que lá existia para proceder ao envio da informação.

Esta experiência SERVIU muito quando desenvolvi o software de Gestão PRMenu/Sismenu e mais tarde o Innovation e o SWEG de forma a que os sistemas possam "aceitar um single entry" e converter logo para "n" planos e 2 moedas.

Eu também "herdei parte dos meus clientes de book keeping da PWC" quando eles fecharam. Aceitei provisóriamente até eles resolverem outra empresa a Stag e a Plessey ( lembro-me destas duas) ..

Foi precisamente por fazer a contabilidade da Plessey que, quando o novo Director da Plessey Angola, Sr Dinis Correia soube que o Abbott ia fechar, me ofereceu o lugar de controller na Plessey Angola.

Na altura lembro-me de andar à procura e fiz entrevistas na IBM e Lusolanda onde fui aprovado mas o problema é que eu precisava de ter uma garantia em dinheiro fora de Angola porque o dinheiro angolano tinha literalmente deixado de ter valor. Apenas a Plessey me ofereceu na altura 10mil escudos por mês em Portugal para além do salário máximo permitido em Angola ...

E AGORA SIM ... SALARIO MAXIMO .. Em Angola nenhuma empresa ( ou o próprio EStado ) podia pagar mais do que 29mil kwanzas aos seus funcionários .. Ao câmbio oficial até nem era mau, cerca de 1000 USD por mês, mas, no paralelo, chegou a valer menos de 10 USD.

Salto para a Plessey agora. .. Outra super experiência onde APRENDI MUITO ... Muito mesmo !!